A voz do silncio

Giselda Laporta Nicolelis

ilustraes Sandra Kaffka. - So Paulo: Scipione,
2002. - (Srie Dilogo)

1a EDIO
1a impresso

INTRODUO

A voz do silncio baseia-se na histria verdica de uma
professora - a quem tive o privilgio de conhecer - que adotou
uma garota de seis anos, deficiente auditiva de nascena e, por
isso, tambm muda. Sua luta pela recuperao da menina me
comoveu tanto que resolvi mergulhar no mundo desses deficientes,
entre os quais tambm me situo.

Antes de completar trinta anos de idade, descobri que era
portadora de otosclerose - o estribo (um dos ossculos do ouvido
mdio) se calcifica e deixa de vibrar, impedindo a passagem do
som. Por muita sorte, no meu caso, o problema no foi bilateral,
e mantive um ouvido intacto. Tambm descobri - pasmem! -
que, a cada filho que gerava (foram dois), eu perdia 30% do ouvido
afetado. Tenho uma conhecida que teve trs filhos, e, acometida
de otosclerose bilateral, ficou totalmente surda aps os partos.
O que tem o ouvido a ver com o tero? Ningum sabe explicar,
mas o assunto  fascinante...
O melhor de tudo  saber que essa enfermidade tem possibilidade
de tratamento. O estribo calcificado pode ser substitudo
por uma prtese de metal (ouro ou platina).
No incio do terceiro milnio, h cerca de 150 mil deficientes
auditivos na cidade de So Paulo; 480 mil no estado de So
Paulo; 2 milhes no Brasil; e 57 milhes no mundo. Acima dos
65 anos, cerca de 50% da populao mundial sofre de algum tipo
de problema auditivo. O ideal  que, ainda no berrio, no segundo
ou terceiro dia de vida, o beb seja submetido a um exame que
possa detectar uma possvel deficincia auditiva. Quanto mais
cedo for feito o diagnstico, maiores so as chances de tratamento,
principalmente se este for iniciado at os seis meses de idade.
Meu desejo, ao escrever este livro,  de que todo deficiente
auditivo tenha a mesma chance que Ndia teve: de uma vida normal
e plena, exercendo o seu sagrado direito de cidadania.
A autora

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Todos os seres humanos nascem livres e iguais
em dignidade e direitos. So dotados de razo e
conscincia e devem agir em relao uns aos outros
com esprito de fraternidade.
Declarao Universal dos Direitos Humanos (1948). Artigo 1o.
 preciso ajudar.
Porm primeiro,
para poder fazer o necessrio,
 preciso ajudar-me agora mesmo,
a ser capaz de amor, de ser um homem.
Eu que tambm me sei ferido e s,
mas que conheo este animal sonoro
que profundo e feroz reina em meu peito.
Vento geral - Thiago de Mello
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Captulo primeiro

A garota se esconde como um animalzinho
arisco atrs da saia da me.
- Como  seu nome? - pergunta Samara.
- Ela no fala. - Rosa, a faxineira, responde com
um olhar triste.
- Como assim, no fala?
- Ah, dona Samara, a menina nasceu surda. T
com seis anos e nunca ouviu um som na vida. Nem a
voz da prpria me!
- Como  o nome dela?
- Ndia.
- Que nome bonito! Voc sabia que Ndia quer
dizer 'esperana'?
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A faxineira suspira ainda mais triste:
- Esperana de qu, me diga? Vai crescer como
um bicho, sem poder ouvir nada. Que destino mais
triste o da minha filha!
- Voc j levou a Ndia ao mdico? O que ele disse?
- Que mdico, dona Samara? A gente vive l na
favela, sem recurso nenhum. O pai dela me largou, eu
ainda tava grvida. Tenho mais quatro filhos pra cuidar,
de outros pais, que tambm sumiram por a e me
deixaram sozinha...
- Meu Deus! Ela nunca foi ao mdico? - Samara
no acredita no que ouve.
- Nunca. Cresceu desse jeito, t com seis anos.
Me d uma baita tristeza de ver ela assim, mas que 
que eu posso fazer? Eu nem sei se ela t triste ou alegre,
parece um bichinho agarrado na minha saia. No
escuta nada, como ia aprender a falar?
- Rosa, a gente precisa fazer alguma coisa por ela.
A garota olha ressabiada, ainda escondida atrs
de sua me.
- Fazer o qu? A gente mal tem o que comer, eu
mais as crianas... E olhe que dou um duro danado,
fazendo faxina o dia inteiro.
- Me deixe pensar um pouco... Olhe, no deixe
de vir na quinta-feira, tem mais servio pra voc. Da
a gente bate um papo sobre a menina. Ndia, pegue
uma bala...
A garota, sem esboar reao, pega a bala. E torna
a se esconder atrs da saia da me, que diz:
- Eu volto na quinta, sim. Se for para o bem da
Ndia... Eu tambm quero fazer alguma coisa, s que
sozinha no d...
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- Na quinta a gente resolve. At l.
Me e filha saem para a tarde ainda ensolarada.
"Meu Deus", pensa Samara, " to fcil prometer!... O
que mais eu poderia fazer?" Como ignorar aquele
olhar sofrido, estranho, da menina perdida no seu
mundo de silncio?
Gustavo, o filho de Samara, chega da escola
como um terremoto. Atira a pasta sobre o sof e grita:
- Me, t passando um filme legal no cinema do
shopping. Posso ir, posso?
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A me olha o garoto: saudvel, falante, enturmado
com os colegas de escola e envolvido com o mundo
ao seu redor. Como seria se ele tivesse nascido surdo?
Ah, ela logo saberia. O pediatra a mandaria rondar o
bero onde o menino dormia, fazendo pequenos rudos
para ver a reao do seu beb... Com certeza ela
saberia! Tantas vezes ouvira falar nisso! Quanto mais
cedo o diagnstico de uma surdez, maior a eficcia do
tratamento, claro! Ainda mais que ningum  completamante
surdo; dizem que sempre h um restinho de
som nos ossos, nos nervos... Alm disso, uma criana
pode nascer surda, mas no muda. Essa palavra foi at
abolida! A fala no chega a se desenvolver apenas porque,
no ouvindo os sons, a criana se torna incapaz
de reproduzi-los.  lgico!
Mas... e a Rosa? Faxineira, cheia de filhos, pai e
me ao mesmo tempo e morando numa favela... Essa
mulher teria condies de constatar tudo isso na sua
penosa luta pela vida? Claro que sim. Hoje em dia, com
o rdio e a tev, at pessoas analfabetas tm acesso 
informao. No entanto, com o tipo de vida que ela leva
- incluindo as longas horas em nibus apinhados para ir
e voltar do emprego, alm dos cuidados que deve ter
com a prpria casa -, no seria exigir muito? E aquela
criana crescendo no vcuo, no silncio do seu mundo
solitrio, como se vivesse dentro de uma proveta?
- T triste, me?
- Ah, meu filho... Estou triste, sim.
- Eu fiz alguma coisa? No gosto de ver voc triste...
foi o papai?
- Que nada, Gustavo, foi uma menina que eu
conheci hoje.
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- O que ela fez?
- Nada, meu filho.  que ela  surda.
Ele arregala os olhos, surpreso:
- Surda? Quer dizer que ela no ouve... nada? -
Gustavo tem dez anos.  filho nico, mimado  bea.
O que ele sabe das mazelas da vida?
- Isso mesmo, ela no ouve nada e, por isso, tambm
no aprendeu a falar.
- Ela tambm  muda? - O menino fica cada vez
mais surpreso,  medida que seu crebro processa a
informao. "Imagine algum que no ouve nem
fala... que coisa mais triste!", ele pensa. - P, me, que
zica! Quem  ela, eu conheo?
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-  a filha da Rosa, a nossa faxineira. Ela se
chama Ndia e tem seis anos; eu s a conheci hoje, e
fiquei emocionada.
- Ela j foi ao mdico, me? Quem sabe tem cura...
- Nunca! D pra imaginar uma coisa dessas? Esse
 o problema: elas so muito pobres, moram numa
favela. A me nem sabe por onde comear. Mas eu tive
uma idia: quem sabe se...
- ... a gente levasse a garota ao mdico? - completa
Gustavo.
- Pensei em algo mais que isso: a gente podia
ficar uns tempos com a Ndia e organizar todo o tratamento
dela, o que voc acha?
O garoto franze as sobrancelhas e esboa um sorriso
murcho:
- Ela aqui, morando com a gente? Ih, me, no
acho uma boa, no!
- Por qu, meu filho? Ela  uma gracinha de
menina, podia ser como uma irm pra voc. Eu digo
isso porque a Rosa tem falado em voltar para a terra
dela, l no Nordeste. Ento ela podia deixar a Ndia
por uns tempos com a gente. Com tratamento especializado,
ela pode aprender a se comunicar, quem
sabe at falar, j imaginou que beleza? Ela no fala
porque no ouve, entendeu?
- Voc j disse isso. S que, aqui em casa, eu no
quero ela, no!
- Depois a gente conversa melhor sobre isso, t
legal, filhinho?
Hora do jantar. Enquanto Rodrigo, o pai, toma
sua sopa, Gustavo dispara:
- Pai, voc conhece a Ndia?
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O pai pensa por uns instantes, depois brinca:
- No, filho, por qu?  a sua nova namorada l
da escola?
Samara entra na conversa:
-  a filhinha da Rosa, a nossa faxineira. Imagine,
Rodrigo, que a menina tem seis anos,  surda e, em
conseqncia disso, no fala. Nunca foi ao mdico na
vida. Ento eu pensei em orientar o tratamento da
garota.  muito triste ver uma pessoa assim, fechada
no seu silncio, com tantos recursos que a medicina
tem hoje... Essa menina pode at vir a falar um dia,
quem sabe?
- E sabe o que a me quer fazer, pai? - continua
Gustavo.
- O qu, meu filho?
O garoto ento solta a bomba:
- Quer trazer a Ndia pra morar com a gente, porque
a me dela vai embora pro Nordeste.
Rodrigo at engasga com a sopa. Depois de um
acesso de tosse, pergunta, incrdulo:
- Voc quer fazer... o qu?
- L na roa onde vo morar  que a menina
jamais ter tratamento mesmo - explica Samara,
fazendo de conta que no percebe o espanto do marido.
- Corta o corao ver aquela criana to desamparada!
A gente no podia ficar uns tempos com ela,
Rodrigo, s para o tratamento?
Rodrigo procura se manter calmo:
- Que idia mais absurda, Samara! J no temos o
Gustavo pra cuidar? E, depois, essa menina no  problema
nosso, ela tem pai e me, no tem? Como dizia
minha av: "quem pariu Mateus que cuide dele!"
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- Na realidade, ela s tem me - continua
Samara, fingindo no ter ouvido a frase final. - O pai
sumiu no mundo. Eu gostaria muito de ajudar essa
criana a ter um futuro melhor. Alm do mais, o
Gustavo j est um garoto, sabe se cuidar muito bem.
Pense nisso com carinho, t, Rodrigo?
Mas o marido no se deixa convencer:
- Pra mim isso tudo no passa de uma loucura. E
tem mais: voc nem sabe se a me estaria de acordo
em deixar a menina...
- Meu instinto de mulher diz que sim. Que me
no gostaria de ver a filha curada?
- Voc no  mdica, Samara - ele agora luta para
conter a irritao. - Como pode saber se a garota tem
cura? Pelo amor de Deus, voc e suas idias caridosas!
Ser que j no chega a preocupao com o Gustavo?
- Eu no dou preocupao nenhuma, pai! - o
menino entra na conversa, mesmo sem ser chamado.
- D um tempo, t? - Rodrigo levanta-se e vai ver
tev, enquanto Samara pisca o olho para o filho, em
cumplicidade.
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Ndia, sem sono, vira e revira na cama que reparte
com os irmos. Rosa se achega, passa a mo na testa
da filha e constata que ela tem febre.
"Ah, meu Deus!", pensa a mulher. "Nem doente a
Ndia consegue pedir ajuda. O que vai ser dessa menina
se eu faltar um dia? Se ao menos eu conseguisse uma
boa alma para lhe dar uma chance de tratamento...
Quem sabe ela ouvia alguma coisa, falava s um pouquinho...
A patroa, a dona Samara,  uma boa moa e,
alm disso, professora. Tinha um olhar de interesse ao
conhecer a Ndia, quis saber dos seus problemas. Quem
sabe ela poderia fazer alguma coisa pela menina..."
Na quinta-feira, Samara espera em vo: Rosa no
aparece para trabalhar. Como no tem telefone, 
impossvel contat-la. S vem na segunda-feira, logo
cedo, parecendo cansada.
- E a Ndia, por que no veio, Rosa?
- Est doente, dona Samara, teve muita febre, foi
por isso que faltei esses dias... Quando a Ndia fica
doente, fica ainda mais agarrada comigo, no d pra
deixar ela sozinha com os irmos.
- Fez bem, Rosa, ela precisa de muito carinho
mesmo. Sabe, durante esse tempo, pensei muito na
sua menina.
- Eu tambm pensei umas coisas, dona Samara. A
senhora sabe, eu t querendo voltar pra minha terra,
l no Nordeste.
- , voc falou que tem parentes l, no ?
- E uma casinha decente pra morar, na roa.
Quero plantar uma boa horta, ter uma vida melhor
pra mim e pros meus filhos.
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Samara encara a faxineira: parece to cheia de
esperana... Sem querer, pergunta:
- Tem certeza de que vai melhorar de vida, Rosa?
Ouo falar de tanta seca, falta de gua, sem contar que
os empregos so difceis e mal pagos, principalmente
no campo.
- Eu quero pelo menos tentar, n, dona Samara;
 um sonho meu faz tempo. Eu at ganho um dinheirinho
fazendo faxina, e olhe que  trabalho pesado.
Mas viver na favela... A maioria do pessoal  gente
boa, mas tem muito bandido, traficante de droga,
exemplo ruim pras minhas crianas...
- Pois lhe desejo muita sorte, Rosa. Se precisar de
alguma coisa,  s pedir.
- Obrigada, a senhora  gente fina; eu queria
mesmo pedir um favor...
- Pois pea, no se acanhe.
Rosa respira fundo, tomando coragem:
- Ser que a senhora no ficava uns meses com a
Ndia pra mim? Sei que a senhora trabalha, j tem o
Gustavo, mas se pudesse levar a menina no mdico,
tentar conseguir um aparelho de surdez, sei l... Me
di tanto ver a Ndia daquele jeito, j pensou se eu faltar?
O que vai ser da vida dela? Quem vai cuidar da...
Soluos interrompem a frase. Rosa procura um
leno dentro da bolsa, enxuga os olhos, com vergonha
da prpria emoo. Samara sente um n na garganta,
faltam-lhe palavras. At que, tambm controlada, responde:
- Sabe que eu tive a mesma idia, depois que voc
saiu daqui na semana passada? At comentei com o
Gustavo e o Rodrigo. Eu gostaria tanto de ajudar!
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- Ento posso contar com a senhora? - Rosa
lana um olhar suplicante, toda a esperana do
mundo contida naquele simples olhar.
Do fundo do corao, Samara toma uma deciso
corajosa:
- Pode, eu conveno os dois. No sei como, mas
eu consigo.
- Ah, no quero causar problema pra senhora,
no, se os dois no quiserem... O menino  filho
nico, pode ficar enciumado.
- , esse  o problema maior, porque o Rodrigo
adora criana e eu dou um jeito de convenc-lo. O
Gustavo  muito mimado, mas precisa aprender a ajudar
os outros, a gente no pode deixar a Ndia desse
jeito. Me d uma semana, t bem? Na outra segundafeira
lhe dou a resposta.
- Que Deus lhe ajude, dona Samara. Acho que a
Ndia gostou da senhora tambm, ela at sorriu quando
ganhou a bala.  to arredia, a pobrezinha!
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Nesse dia, Rosa trabalha mais animada. Varre,
limpa e esfrega a casa da patroa com um carinho especial.
Observando-a, Samara surpreende-se com a coincidncia:
ela pensando em ter a guarda da menina para
um tratamento especializado, enquanto a me tinha a
mesma idia. Desprendimento materno, que coisa
linda! Rosa prefere separar-se da prpria filha para que
esta consiga superar sua deficincia - uma mulher to
simples, mas com maturidade de pensamento, capaz de
um ato de coragem e amor verdadeiro.
No ser um sinal de que ela, Samara, deve
mesmo cuidar da pequena? Mas como convencer o
marido e o filho, principalmente Gustavo, to possessivo
do amor dos pais? O menino tem de tudo, ao contrrio
de Ndia, solitria e oprimida naquele silncio
aterrador, que torna seu pequeno mundo to limitado
e sem esperana...
Ela no poderia conviver com aquele sentimento
de frustrao, caso a menina viajasse, perdendo a nica
chance de sua triste vida. Decidida - aproveitando que
nesse dia  feriado escolar -, liga para o marido:
- Vou at o seu escritrio, preciso falar com voc
sem o Gustavo por perto.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu sim, eu preciso da sua ajuda.
- O que foi, Samara, desse jeito voc me assusta!
- No se preocupe, aqui est tudo bem...  s uma
questo que precisamos discutir.
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Captulo segundo
Sentada na frente do marido, olhos nos olhos:
- Posso ser franca com voc, Rodrigo?
- Mas claro que pode, querida! Afinal, temos treze
anos de casados, e a franqueza sempre foi a nossa fora.
Samara respira fundo:
- Eu quero ficar com a menina.
- Quem?
- No me diga que voc esqueceu... a Ndia!
- A garota surda? Ainda com essa idia maluca,
tenha pacincia, Samara!
- Maluca por qu?
- Por muitos motivos: temos um filho que vai se
sentir rejeitado; a garota demanda cuidados, uma trabalheira;
e porque voc est decidindo de forma emocional,
e isso no  bom pra ningum.
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Samara lembra-se de uma frase que ouviu em
algum lugar: "a melhor defesa  o ataque". E resolve
partir para ele.
- Eu sou emocional, assumo isso, Rodrigo. No
poderia ter uma reao diferente com a minha personalidade.
Que h de estranho em querer ajudar uma
criana to desprotegida? Temos muito mais meios do
que a me dela, concorda?
- Nem tantos assim. Seu salrio de professora 
baixo e eu no ganho o que mereo. E temos o
Gustavo pra cuidar...
- Pelo amor de Deus, Rodrigo! Ento no podemos
levar a garota ao mdico, comprar um aparelho
de surdez? E se nosso filho tivesse alguma deficincia?
A gente daria um jeito... ou no?
-  muito diferente, ele  nosso filho, felizmente
nasceu sadio e...
- Mas poderia no ter nascido assim. Por que no
podemos ajudar uma criana deficiente em nome do
nosso filho to sadio, hein? Acho que seria enriquecedor
para ambas as partes. Gustavo anda egosta,
mimado, talvez porque seja sozinho.
- Com isso eu at concordo - Rodrigo fica pensativo.
- Uma irmzinha at que seria uma boa. Mas ela
no ...
- Esse tipo de argumento eu no aceito, Rodrigo.
- Samara parte para o ataque final: - O que vale  a
convivncia, o afeto. Marido e mulher no so parentes
e criam entre si laos muito mais fortes do que se
fossem.
Rodrigo at ri:
- Est virando psicloga, a minha mulher.
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- Prometa que vai pensar no assunto, por favor...
Eu gostaria tanto!
- Se voc est querendo outro filho, podemos
tentar.
- No, no estou querendo ficar grvida de novo,
se voc quer saber. Uma gravidez j basta. Voc sabe o
quanto eu passei mal quando esperava o Gustavo.
Alm disso, o meu mdico no aconselha. Eu no
quero mais filhos. Mas quero ajudar essa menina a sair
do seu silncio, da sua aridez interior.
Rodrigo ainda tenta argumentar:
- Voc j pensou, por um momento sequer, no
trabalho que ela daria a todos ns?
- J, isso no me preocupa, seriam apenas alguns
meses, enquanto ela aprende a lidar com o aparelho,
talvez numa escolinha para crianas com deficincia
de audio e fala. Eu posso conseguir isso. Tenho uma
colega que trabalha numa instituio assim, ela 
fonoaudiloga.
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- O Gustavo disse que no quer.
- Ele  muito novo para tomar decises desse
tipo. Acho que seria bom para ele, que vive reclamando
das coisas, ver a luta dessa menina.
- E quem garante que ela ser uma lutadora? Pelo
que sei, voc s a conheceu na semana passada, quando
ela veio com a me. O caso dela pode ser irremedivel,
Samara.
- Mas eu gostaria de tentar. O olhar dela, no sei
por qu, me deu a certeza de que ela  uma lutadora,
apenas no teve ainda meios de lutar.
Rodrigo observa Samara  sua frente. Olhos brilhantes,
corao falando mais alto. Que loucura tentar
uma coisa dessas! Como ser essa criana que ela pretende
colocar dentro de casa? Quase um animalzinho
selvagem, possivelmente perdido no seu mundo interior?
Sem ouvir e sem falar, o que ela pensa da vida,
das pessoas? Afinal, qual a importncia, para um ser
humano, de poder ouvir? Ser maior do que a de
poder enxergar? O cego de nascena nada v, ento
no sabe o que perde. Cresce e vive na escurido
aprendendo a contatar o mundo pelos rudos e pelas
sensaes tteis. Evidentemente a natureza supre de
outras formas o que tira. O cego costuma ter uma
excelente audio, um timo tato. E o surdo? Ele v o
mundo radioso  sua volta, as cores, as pessoas se
movimentando, se comunicando, crianas correndo,
brincando. Entretanto, ele no ouve nada disso, tem
apenas a percepo das coisas, sem possu-las ou desfrut-
las. Talvez a surdez seja ainda pior do que a
cegueira, pois o surdo v e no participa, ficando marginalizado
na solido a que o silncio o condena.
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Como cresceria essa criana surda, filha de uma pobre
faxineira, que possivelmente esperaria horas na fila de
um hospital pblico ou posto de sade se quisesse
levar a filha ao mdico? E o "volte amanh", a consulta
depois de meses, talvez at de um ano - a mulher
poderia se dar ao luxo de tanta espera, de voltar quantas
vezes fosse preciso? E, mesmo quando e se fosse
atendida, teria condies de cuidar do tratamento da
filha, comprar um aparelho, trein-la convenientemente
ou coloc-la numa escola especializada?
O olhar de Samara ali  sua frente. Que mulher
arrojada, meu Deus! Com uma vida tranqila, o filho
praticamente criado e um trabalho que ela ama, apesar
de mal remunerado. Em vez de se acomodar, essa
garra de cuidar daquela criana e iniciar um tratamento
trabalhoso. Ser que, cansada, logo no fim do primeiro
ms, ou at da primeira semana, ela j no
desistiria?
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- Voc tem certeza de que quer isso mesmo?
No prefere pensar mais um pouco? Pense no trabalho
que voc vai ter.  como se estivesse adotando
uma nova Helen Keller, lembra? Aquela americana
que, aos dois anos, pegou uma doena que a deixou
cega e surda? E sabemos que aqui no Brasil no h
tantos recursos quanto nos Estados Unidos ou na
Europa...
- Quer dizer que voc... concorda? - Samara d
um grito, com os olhos radiantes como estrelas.
- Concordo - Rodrigo sorri, preocupado. - Mas
me d sua palavra: se no agentar, me avise. Esse
trabalho s pode ser feito com amor. Se houver revolta,
no adianta nada.
- Claro que eu agento! Ah, que alegria! A Rosa
vai passar em casa na prxima segunda-feira. Ela
tambm vai morrer de felicidade!
- Deixe que eu falo com o Gustavo - oferece
Rodrigo. - Uma conversa de homem para homem.
Mas pode se preparar: ele vai ficar revoltado. Voc j
pensou onde a garota vai dormir?
- Podamos preparar um quartinho para ela
naquele cmodo que est vazio.
- No est vazio;  l que o Gustavo guarda seus
brinquedos e assiste  tev.
- Isso porque est sobrando espao. Ele pode
muito bem guardar os brinquedos no prprio quarto.
A no ser que durmam os dois juntos.
- Melhor deixar essa deciso para o Gustavo.
Acho que ele prefere ter um quarto s pra ele, mas 
bom que aprenda a dividir as suas coisas.
Contudo, Samara adverte o marido:
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- Prepare-se. J imagino o que o resto da famlia
vai dizer: que enlouquecemos.
- Problema deles. Quem decide a nossa vida
somos ns. Quanto tempo a Rosa vai ficar no Nordeste?
- Talvez para sempre. Estar melhor por l, onde,
pelo menos, tem moradia decente no stio da famlia
dela. Quando a menina estiver legal, pode ir morar
com a me.
- Tudo bem. Vou falar com nosso advogado,
creio que precisamos de uma autorizao do juiz de
menores para obter a guarda provisria da garota.
Avise a Rosa, se  que ela ainda no mudou de idia.
- Como eu posso agradecer a sua bondade,
Rodrigo?
- Trate de ter foras para o que vem por a, meu
bem. Voc nem imagina o trabalho que arrumou.
Nessa mesma noite, Rodrigo convida Gustavo para
jantar fora, s os dois. Conversa de homem para
homem. Ele quer testar a reao do garoto longe da me.
Perto dela, Gustavo se comporta de modo muito infantil,
possessivo e carente. Filho nico  fogo! Por mais que
se tente impor disciplina, ele  sempre o rei do pedao.
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Samara tambm gosta da idia. Ficar um pouco
sozinha lhe dar tempo de pensar melhor sobre o
assunto e telefonar  amiga fonoaudiloga para estruturar
bem os seus planos. A tarefa a que se prope -
Rodrigo tem toda razo - no  brincadeira.
Alm disso, h outro problema: a garota concordar
em viver na companhia deles? Deixar a me, os
irmos? Arredia do jeito que ... Mas alguma coisa
arde naqueles olhos assustados: uma chama tnue,
mas que fala alto na sensibilidade de Samara. Aquela
menina merece essa oportunidade - todos merecem -,
porque vibra em seu corpo uma fora oculta, como
um grito calado: "Por favor, me ajudem!"
Ela far o possvel para ajudar. Com os seus recursos,
tentar trazer aquele triste ser para a vida. Que terrvel
viver at os seis anos de idade em completo silncio!
Como ser um mundo assim, silencioso? Sem um
canto de pssaro, sem msica, sem o carinho das palavras?
O que entender do mundo, do significado de
estar vivo, algum condenado assim ao silncio? Que
estranhas sensaes sero conseqncias de tal solido?
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Disca o nmero da amiga, ela atende. Fica surpresa,
elogia a coragem de Samara e coloca-se  sua disposio.
Recomenda, enftica, uma escola para surdos que
funciona em perodo integral, com crianas de vrias
idades. Evidentemente, quanto mais cedo se iniciar o
tratamento, melhor. H um grande atraso, a garota j
tem seis anos. Tudo depender de uma boa avaliao,
isso  fundamental para definir o tipo e a extenso da
surdez de Ndia. D nome e endereo de um mdico
amigo, foniatra, que poder orientar o tratamento, a
escolha do aparelho a ser usado, e tudo o mais. Isso
depois dos testes a que a menina ser submetida.
Horas depois, pai e filho voltam para casa.
Rodrigo d uma piscadela, querendo dizer: tudo certo.
E Gustavo vai logo falando:
- Pode dar o meu quarto de brinquedos para a
Ndia. Acho que eu vou gostar dela. Desde que voc
goste mais de mim... No vai me deixar de lado, vai?
- Ora, meu filho - Samara agarra o garoto, d-lhe
um forte abrao. - Voc  o mximo pra mame e pro
papai. A gente s vai ajudar um pouco a Ndia.
-  isso a - concorda o garoto. - Eu tava meio
enciumado no comeo, porque, afinal, sou a nica
criana aqui da casa, n, mas a gente tem de ajudar,
sim. O papai me falou do jeito que a Ndia vive. D
um aperto no corao... E se ela for pra roa, nunca vai
aprender mesmo.
-  isso a, filho, fico to feliz de ver que voc
entendeu...
- E quando ela vem? No vai mexer nos meus
brinquedos, vai? No quero que ela estrague tudo.
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- Ela nem liga, filho. Pelo menos por enquanto,
esses mecanismos eletrnicos no fazem o menor sentido
pra ela. Ainda vai demorar algum tempo pra
Ndia se interessar por isso.
Gustavo parece mais animado:
- Da eu ensino direitinho e ela no estraga, n?
Tudo bem. E quando ela vem pra casa?
Samara sorri ao ouvir aquele "pra casa":
- Vai depender da ordem do juiz.
- O nome dela  bonito: Ndia!
- Quer dizer 'esperana', meu filho. De ser uma
pessoa igual a todas as outras, de ter uma vida normal.
Ela vai ter, se Deus quiser.
- Com a nossa ajuda, n, me? Olhe, eu vou contar
pra todos os meus colegas que vou ganhar uma
irm. E posso dizer que ela  surda-muda?
- Acho que a verdade a gente deve dizer, sim, que
 que tem? Assim eles tambm vo ajud-la.  preciso
que todo mundo ajude a Ndia a descobrir a vida. Na
realidade, ela  apenas surda, por isso est muda,
entende? Quando ouvir, talvez at consiga falar.
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Captulo terceiro
Segunda-feira, logo pela manh, Rosa aparece,
trazendo Ndia pela mo. Samara espera por elas.
Sentam-se para conversar, os olhos escuros da menina
denotando curiosidade. A faxineira pergunta, ansiosa:
- Ento, dona Samara, o seu Rodrigo concordou?
- Concordou, sim, Rosa, e o Gustavo tambm.
Voc est de acordo que eu fique com a Ndia para o
tratamento? Dou a minha palavra de que farei esta
menina ouvir e, se possvel, at falar.
- Ah,  o que eu mais quero na vida... - suspira
Rosa. - Pelo menos posso morrer tranqila, sabendo
que a minha filha no est to perdida nesse mundo
de silncio dela...
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- Tenho boas notcias, Rosa - continua Samara. -
Tenho uma amiga fonoaudiloga que trabalha com
crianas como a Ndia. Ela j me indicou um bom
mdico e tambm uma escola. Quando voc voltar,
nem vai reconhecer a sua menina.
- Deus lhe oua, dona Samara. Agora, o que eu
queria da senhora era um jeito de convencer a menina
a ficar aqui. Ela  muito agarrada a mim,  como
um bichinho assustado. Nunca ficou longe antes.
- Claro, Rosa. Vou precisar de algumas informaes
para dar ao mdico - diz Samara. - Enquanto a
gente conversa, a Ndia j vai se acostumando comigo.
- O que a senhora precisa saber? - pergunta Rosa,
disposta a colaborar.
- Se existem casos de surdez na famlia, se a
menina j nasceu assim ou ficou surda depois de
algum remdio, por exemplo. H antibiticos que causam
a surdez, mas a deficincia tambm pode ser
gentica ou congnita.
Rosa pensa por alguns instantes:
- Na famlia no tem, no, dona Samara. No
que eu me lembre. Agora, eu tive rubola quando tava
grvida da Ndia. Ser que...
- No tenho certeza, no sou mdica, mas 
muito provvel. A rubola  terrvel nos primeiros trs
meses de gravidez. Ainda bem que j existe uma vacina.
Todas as mulheres deveriam tom-la, por precauo,
se no tiveram rubola na infncia ou adolescncia.
Vou anotar aqui, direitinho.
Enquanto isso, Ndia se levanta e comea a girar
pela sala.  atrada por um brinquedo jogado no cho.
Abaixa-se e fica entretida com ele.
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- Ela parece interessada. Bom sinal - comenta
Samara.
- Ah, ela no  boba, no, se  isso que a senhora
quer dizer. Gosta de brincar, coitadinha. As crianas
da favela  que judiam dela, vivem xingando a pobre
de "surdinha" ou "mudinha". Ser que ela aprende a
falar mesmo, dona Samara?
- Vai ser preciso muito esforo, mas quem sabe
ela no aprende? - apia Samara. - Voc disse que ela
tem seis anos, no ?
- Fez seis agorinha. Nunca teve doena sria, s
febre, coisa de criana. Nem tomou remdio desses
que a senhora falou. Acho que foi mesmo da rubola
que eu tive na gravidez.
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- E quando  que voc percebeu que ela no ouvia?
- Vida de pobre, n, dona Samara, a senhora
sabe... Saindo logo cedo pra fazer faxina, horas no trnsito,
nesses nibus lotados. Os filhos crescendo meio
sozinhos, na mo dos mais velhos, dos vizinhos... Eu
fui perceber mesmo, ela j tinha quase trs anos.
Dormia demais, sempre foi um beb muito quieto.
- Esse  o grande problema, a minha amiga me
explicou direitinho - completa Samara. - A gente precisa
fazer uns testes com as crianas, desde que elas so bebs.
Falar com elas quando esto de costas, bater tampas de
panelas, enfim, qualquer barulho para ver se h reao.
- Acho que eu s fui perceber que a minha filha
no falava quando a crianada da mesma idade l na
favela j tava tudo falando, gritando e pintando o sete.
Mesmo os meus outros filhos. Ento um dia eu fiz isso
que a senhora falou: bati forte numa caneca e a turma
toda reclamou do barulho. A Ndia nem ligou, conti-
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A_voz_do_silencio 4/15/03 22:19 Page 32
nuou quieta e parada, como se no tivesse ouvido
nada. Ela j tinha quase trs anos e no dizia uma
palavra. A eu chorei muito, dona Samara, at molhei
a roupa de tanto chorar. Era demais pra mim ter uma
menina surda-muda em casa.
- Mas s chorar no adianta nada, Rosa. O que
adianta  agir. Quanto mais cedo, melhor. Mas j que
nada foi feito, comeamos agora com toda a f e fora de
vontade. Voc vai ver que a sua menina ainda tem remdio.
Ela pode entrar na escola e ser uma criana normal.
- Preciso assinar algum papel, dona Samara?
- Precisa sim, Rosa. L na frente do juiz, para ele
nos dar a guarda provisria da Ndia. O advogado vai
cuidar de tudo. Quando voc viaja para o Nordeste?
- Assim que tiver tudo pronto.
- Pois vamos fazer assim: voc vem todo dia, se
puder, pra Ndia ir se acostumando comigo, com a
casa, o Gustavo e o Rodrigo. Se for preciso, voc dorme
aqui pra menina no ter medo. Assim, quando sair a
papelada, ela no vai sofrer tanto com a separao.
- A senhora  muito boa, nem sei como posso lhe
agradecer...
- Deixe disso, Rosa. Eu gosto muito da Ndia. A
alegria dela vai valer todos os sacrifcios.
Samara se aproxima da menina e a abraa. A
garota, ainda arredia, no retribui o abrao, agarrada a
um carrinho de brinquedo do Gustavo.
- Vai ser duro deixar a minha caula - suspira
Rosa -, mas sei que vai ser para o bem dela. Daqui a
um ano eu junto um dinheirinho e venho ver minha
menina. Quem sabe ela j no pode ir embora comigo,
no ?
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Os dias seguintes so cheios de trabalho. As duas
mulheres e Rodrigo preparam os papis da guarda provisria
para o juiz assinar e comparecem ao frum.
Isso transcorre de forma simples, porque o advogado
entende bem do assunto, e o juiz sensibiliza-se com o
problema de Ndia. Rosa assina tudo tranqilamente,
prometendo voltar no ano seguinte para rever a filha.
No h uma data-limite para a guarda provisria: ela
poder se estender por mais tempo, se o estado de
sade da menina assim o exigir.
O segundo passo  fazer com que a garota se
acostume com a nova casa, o que no  to difcil
quanto parece. Samara, carinhosa por natureza, acolhe
Ndia como uma filha. A garota encanta-se com o
pequeno quarto, redecorado em tons de rosa e branco,
com uma grande boneca em cima da cama. Seus olhos
brilham de alegria.
Na casa h um gato angor alvssimo e lindo, de
grandes olhos verdes. A menina afeioa-se ao animal e
 correspondida. Passa o tempo com o gato no colo,
alisando seu plo macio. Gustavo s vezes fica um
pouco enciumado:
- Me, ela roubou o meu gato!
Ou ento:
- Ela tem o quarto dela, por que no sai do meu?
Pega nos meus brinquedos, p, nunca viu brinquedo
na vida? Voc disse que ela nem ia ligar.
Samara tenta consol-lo:
- Ela morava numa favela, est deslumbrada com
tantos brinquedos novos e bonitos. D pra entender,
no d, filho?
Gustavo fica dividido:
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- Eu entendo, me, mas no gosto.
-  importante saber dividir, filho - insiste a me.
- Ainda mais com quem teve to pouco na vida. Se
pelo menos ela pudesse dizer o que sente...
Gustavo ento se comove:
- T legal, me. Eu deixo, ela pode brincar com
os meus brinquedos, sim, p, ela  to bonitinha!
Franzina, mida, os olhos negros, brilhantes e
fundos, contendo toda a emoo do mundo. Como
um dique represado, as emoes trancadas, todas elas
prestes a se soltar. A princpio arredia, tem agora os
olhos cheios de lgrimas na primeira vez em que se v
sozinha. A me indo embora, dizendo:
- Se ela tem de se acostumar sem mim, no
adianta eu ficar por perto, dona Samara. Que Deus
ajude a minha filhinha...
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Ndia v sumir no horizonte a nica ligao que
tem com a vida: sua me. Agora, um mundo estranho
 sua volta, mais ordenado talvez, mais bonito, mais
complexo, mas estranho e por vezes hostil. Gustavo 
ora gentil, ora carrancudo, nas suas crises de possessividade.
O carinho de Samara e Rodrigo, dois estranhos
que a abraam e beijam, cobrindo-a de gentilezas, que
so percebidas vagamente. A cama macia, s dela, a
boneca bonita, as roupas novas que a moa compra e
pe no guarda-roupa, enquanto sorri para ela. E o
banho de banheira, o corpo mergulhado na gua tpida,
o cheiro bom do sabonete, do talco, do perfume.
Desvelos e carinho que ela at estranha: Rosa sempre
apressada, limpando a casa das freguesas, sem tempo
para tantos cuidados, ainda que fosse me devotada e
carinhosa. Quem dava banho nos filhos menores era a
irm mais velha, assoberbada com tantas tarefas, reclamando
que perdeu a hora da escola.
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Ndia agora desfruta de um espao maior, um sossego
grande. No entanto, sente falta das outras crianas
que judiavam dela - mas das quais ela gostava -,
dos vizinhos, daquela velha que lhe dava balas... Seu
novo lar  amplo e bonito, mas tudo ali  estranho, os
rostos, os movimentos, as cores - cad sua me? Foi
embora e a deixou ali. Pra qu? Por qu? Ela nem pode
chorar alto, nem gritar de susto ou de medo, s pode
sofrer calada. As lgrimas lhe escorrem pelo nariz, pela
boca. A moa bonita abraa seu frgil corpo, beijandolhe
o rosto. Tristeza e alegria ao mesmo tempo. To
pequena... Ah, que brinquedos lindos no quarto do
menino, como ela gosta daquele quarto!
Gustavo pula no colo de Samara:
- P, me, voc agora s gosta da Ndia!
- Que bobagem, filho, eu adoro voc! A Ndia
precisa de carinho tambm, no precisa?
- S porque ela  surda?
- S por isso no, mas porque agora ela  como
se fosse sua irmzinha. E precisa de muita ajuda, de
muita compreenso para aprender a ouvir e a falar.
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- Voc acha que ela consegue, me? Eu acho difcil,
hein? Ela se entende bem  com o Doca! Agora
aquele gato safado s quer saber do colo dela...
- O que  que tem, filho?
- J no chega pegar os meus brinquedos, ter o
carinho de vocs... at o gato, p!
- O que  isso, garoto?! Eu sei que voc no 
egosta, vai...
- Voc ainda gosta de mim?
Rodrigo vem entrando, pega o fim da conversa:
- Venha aqui dar aquele abrao no paizo. E
deixe de bobagem, rapaz! Ns gostamos da Ndia, mas
ningum vai tirar o seu lugar!
Gustavo se atira nos braos do pai. Depois, mais
calmo, comenta:
- Como  que pode algum no ouvir nem falar
nada? Gozado, n, me?
- Triste, meu filho. Por isso a gente precisa ajudar
a Ndia. J marquei consulta no foniatra pra depois de
amanh. Vamos comear a luta, de frente!
- Tem horas que ela chora, pai... Acho que tem
saudade da me dela.
- A propsito, a Rosa j viajou? - pergunta Rodrigo.
- J - confirma Samara. - Achou melhor assim. 
uma mulher forte, sabe o que  melhor para a filha.
Mas prometeu escrever, pedindo notcias.
- Cad a Ndia?
- Ah, est brincando com o Doca, ela adora o gato.
- V buscar a Ndia, Gustavo - pede o pai. - 
importante que ela aprenda a conviver bastante
conosco, para se sentir acolhida, como se fssemos a
sua famlia.
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Captulo quarto
Omdico consultado por Samara  simptico e
sorridente, mas incisivo e bastante realista. Aos seis
anos de idade  muito tarde para iniciar um tratamento.
O ideal seria detectar a surdez enquanto Ndia era
ainda um beb, at os seis meses de idade. Enfim, seria
tudo to simples se a populao fosse alertada para
isso! Testes caseiros bem simples, como bater palmas,
colheres ou tampas de panelas, chamar os bebs quando
esto de costas, so eficazes no diagnstico precoce
da surdez. Bebs que no piscam e no reagem ao
barulho provavelmente tm deficincia auditiva.
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Samara fica sabendo de mais detalhes: que a surdez,
segundo estatsticas, atinge um nmero um pouco
maior de meninos do que de meninas, no se sabe a
razo. Pode aparecer numa gerao, sumir na outra e
reaparecer numa terceira; ser causada por remdios,
antibiticos na maioria dos casos; por seqelas de partos,
principalmente os de bebs prematuros, quando
sofrem falta de oxignio (hipoxia); por meningite; pela
sfilis congnita, isto , transmitida de me para filho na
gravidez; por infeces virais durante os trs primeiros
meses de gestao, como  o caso da rubola. Este ltimo
parece ser o caso de Ndia, o que configura tambm
uma surdez congnita. A reside o maior problema. Se a
pessoa ensurdece aps aprender a falar,  mais simples.
Mas, se j nasce surda, torna-se tambm muda, pois no
ouve nenhum som, base do aprendizado oral. O mdico
confirma o que ela j sabia: no existe surdez absoluta.
O que se considera surdez anda pela casa dos 80,
90 decibis. Ele far testes de audiometria para saber
exatamente qual a perda auditiva de Ndia.
O mdico trata Ndia com todo o carinho.  um
especialista em crianas, com vrios anos de experincia.
A garota nem se assusta com os exames audiolgicos,
ainda que dificultados pelo fato de ela ser muda.
Alis, o doutor  taxativo num ponto: no se usa mais
a palavra surdo-mudo, que foi definitivamente abolida.
O termo mais adequado  apenas surdo ou, para ser
"politicamente correto", deficiente auditivo.
Terminados os exames, o mdico  claro e objetivo.
A menina tem uma grande perda, embora desigual, em
ambos os ouvidos. Precisa usar dois aparelhos. Samara
at se assusta quando descobre o preo. O mdico lhe
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diz que ela talvez os consiga gratuitamente atravs da
secretaria de promoo social do estado. Mas isso
demanda tempo, espera, disponibilidade de aparelhos,
verbas, etc. Enfim, tudo no terreno das possibilidades,
nunca da certeza. Ela descarta essa hiptese automaticamente.
Ndia no pode esperar. Samara prefere contar
com seus prprios recursos. Conseguir esses benditos
aparelhos, a qualquer preo.
O mdico comenta que as crianas toleram bem
os aparelhos de caixinhas, que se transformam inclusive
num brinquedo, quando bem adaptados.
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Depois dos testes, saem ambas do consultrio do
foniatra, a cabea de Samara a mil por hora: "Rodrigo
vai dar um pulo quando souber o preo dos aparelhos".
O foniatra j fizera um desconto no preo da consulta,
pela indicao da amiga fonoaudiloga. "Deve haver
um jeito de pagar isso, ainda que em prestaes - o que
aumentar incrivelmente o preo -, ou talvez por meio
de um emprstimo bancrio..." Lembra-se, aflita, das
reclamaes constantes de Rodrigo, de que no agenta
mais pagar os juros do cheque especial!
- Tudo isso?!
 a resposta esperada. Rodrigo se justifica:
- Nossa prestao da casa dobrou, meu bem.
Como poderemos comprar esses aparelhos carssimos?
- Tem de haver uma soluo! Ser que todos os
que precisam desses aparelhos so ricos, meu Deus?!
Rodrigo suspira. Desistir, a essa altura,  impensvel.
E d o sinal verde:
- Informe-se nas lojas especializadas; comprar 
vista est fora de cogitao. Nunca liguei pra dinheiro,
mas nessas horas bem que faz falta. Faa a compra a
prazo, com o mximo de prestaes. Pagaremos o
dobro, mas se no h outro jeito...
- Sinto muito, Rodrigo, no pensei que fossem
to caros. Mas talvez a gente consiga encontrar aparelhos
usados, menos sofisticados, sei l...
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A_voz_do_silencio 4/15/03 22:19 Page 42
- Deixo a seu critrio. Mas, pelo amor de Deus,
no faa uma loucura!
Samara faz uma verdadeira romaria pelas lojas
de aparelhos de surdez: preo de jias, prestaes
altas. Finalmente, encontra uma soluo: comprar
dois aparelhos usados de fregueses abonados que os
trocaram por modelos mais modernos. Ainda assim,
so caros. Mas tm de ser comprados a qualquer
custo, ainda que isso signifique algumas aulas particulares
ou menos coisas suprfluas para o Gustavo.
Ele entenderia... ou no?
O menino no quer entender. Abre um solene
berreiro:
- Droga! Vocs me prometeram um computador
e agora vo comprar dois aparelhos para a Ndia. No
chegava um s, p!
A me, paciente, tenta explicar:
- Um para cada ouvido, meu filho. Ela tem deficincia
nos dois ouvidos.
- Problema dela!
O pai intervm:
- Nunca mais diga isso, Gustavo. O problema
agora  nosso. Essa menina nunca teve oportunidade
na vida, e a gente se props a ajud-la, a qualquer
preo. Voc devia ficar contente de poder ajudar.
- Eu, hein, no sou besta!...
O garoto afasta-se, amuado. Mas logo depois
volta, meio sem graa:
- Olha, eu nem preciso desse computador. Posso
usar o do meu amigo. Pode comprar o aparelho da
Ndia, me, acho legal.
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- Os aparelhos, meu filho, so dois, esqueceu? -
corrige Samara. - Mas fico feliz pela sua compreenso.
Cad a Ndia?
- T l no meu quarto, me. Ela adora aquele
quarto. Agora cismou com o meu avio. Deixa, ela
nunca viu tanto brinquedo junto... Depois que brincar
com tudo, volta pro quarto dela.
Samara e Rodrigo entreolham-se e sorriem um
para o outro. O pai diz:
- Ele est crescendo, foi uma boa a gente trazer a
Ndia para morar aqui.
- Estou com tanto medo, Rodrigo... Vai ser uma
luta! O mdico disse que pode levar anos pra ter algum
resultado.
- Voc no disse que a Ndia  uma lutadora, meu
bem? Ela pode conseguir um milagre. Quem sabe
demora menos tempo?
- A Rosa vai voltar no ano que vem. E se a menina
ainda no falar nada?
Rodrigo olha Samara de frente:
- Estamos fazendo o mximo possvel, no estamos?
Ela j tem os aparelhos. Quando vai matricul-la
na escola?
- Tenho uma entrevista amanh cedo com a assistente
social.
Diviso de Educao e Reabilitao dos Distrbios
da Comunicao - unidade de uma tradicional universidade,
sem fins lucrativos. Para variar, deficitria. L
so feitos os exames em Ndia, para ver se a deficincia
auditiva da menina no acarretou comprometimentos
mentais ou emocionais mais graves.
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O caso da garota prev um tratamento com dois
aparelhos, como o foniatra j havia definido pelos testes.
E, felizmente, no h nenhum problema paralelo,
apenas a surdez. Ela ficar  espera de uma vaga numa
das unidades de meio perodo, e o pagamento  simblico,
Samara paga o que puder. O critrio estabelecido
como medida de valor  esse, ainda que irrisrio,
tipo bolsa de estudos.
Na escola, a menina se submeter - como explica
a assistente social - a um processo de interao, como
brincadeiras entre me e filho, expressas atravs do
corpo. At a dcada de oitenta, o objetivo maior era a
oralidade, ou seja, fazer o surdo falar a qualquer preo.
Desde ento, esse mtodo tem sido repensado. Hoje, a
comunicao entre o deficiente auditivo e o mundo
abrange vrias formas. H a leitura facial, ou oro-facial,
em que ele aprende a "ler" os lbios das pessoas. Usase
tambm a lngua brasileira de sinais (Libras), tambm
chamada de mmica, similar  lngua norte-americana
de sinais, a ASL (American Sign Language), e ao
gestuno, uma espcie de esperanto* mmico. Procurase
tambm desenvolver a oralidade, para que a criana
aprenda a falar pelo menos algumas palavras bsicas. O
objetivo agora  a comunicao total.
- Ser que vai chegar esse dia? - suspira Samara,
bastante ansiosa.
- Mas claro que chegar - sorri a assistente social.
- Que desnimo  esse? Quer visitar a escola, ver como
se comportam as crianas?
- Se quero! Posso?
45
* Esperanto  uma lngua auxiliar de comunicao internacional, elaborada
e divulgada por um mdico judeu-polons, em 1887.
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- Claro que pode. Vamos l.
Ndia, de mos dadas com Samara, caminha receosa,
encurtando os passos. Dentro das classes, crianas
alegres, buliosas, todas com aparelhos, cuidadosamente
guardados em bolsinhos de croch costurados nas
camisetas, inveno amorosa de uma das mes. Uma
feliz interao entre professores e alunos, todos sentados
em crculos, compartilhando suas experincias.
Samara fica esttica com o que v. Tinha imaginado
uma escola triste, quieta, e agora,  sua frente, v
crianas de olhos brilhantes, cheias de entusiasmo.
Ndia aos poucos se acerca das outras crianas,
curiosa com os aparelhos, os fios que saem deles, ligados
aos botes nos ouvidos. Samara tenta det-la, mas
a assistente a impede:
- Deixe a garota,  importante que ela se acostume
com esses aparelhos todos. Sabia que as nossas crianas
sempre incluem os aparelhos nas figuras que desenham?
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- Incrvel essa adaptao, essa alegria toda que
vejo aqui!
A assistente continua:
- H uma discriminao da sociedade em relao
ao deficiente, seja qual for a sua deficincia. Por que
uma escola de surdos teria de ser silenciosa e triste?
Eles esto aqui justamente em busca da vida, do milagre
da palavra!
- Voc tem razo - Samara concorda. - Somos
todos preconceituosos. E a sociedade alimenta esse preconceito
em programas de tev, que ridicularizam os
surdos, principalmente os velhos. Como se no existissem
crianas e jovens com deficincia de audio...
- Isso  um componente perverso da sociedade,
que considera apenas a existncia de indivduos perfeitos
- completa a assistente social. - Quem tem alguma
deficincia  fatalmente discriminado.  importante
que as crianas vejam os aparelhos com naturalidade,
e isso s acontece quando a famlia d um
apoio verdadeiro. Se houver rejeio ao aparelho, o
tratamento se torna complicado.
Ndia continua entretida com tantos botezinhos e
fios. Pelo visto, no ter problemas em us-los.
Principalmente naquelas simpticas bolsinhas de croch,
que Samara promete costurar nas blusinhas da menina.
E ela que nem sabe fazer croch! Vai precisar da ajuda da
me, que tem muita habilidade para fazer croch.
Esses momentos so de extrema importncia. Ali,
naquela escola iluminada, alegre e cheia de professoras
carinhosas, comea uma vida nova para Ndia. O
caminho do crescimento como um ser humano no
gozo de todos os seus direitos.
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Mas ainda falta o principal: a vaga. Dias de
expectativa, consumidos na compra dos aparelhos.
Para adiantar o trabalho, eles ficam  disposio de
Ndia, como se fossem brinquedos.  importante que
a menina os considere como amigos prximos, para
que nunca se separe deles.
Rodrigo, preocupado, adverte a mulher:
- Tome cuidado, Samara, no deixe a Ndia quebrar
esses benditos aparelhos. Eles custaram os olhos
da cara!
- Fique tranqilo, ela est se familiarizando com
eles. Imagine se as crianas carentes pudessem comprar
um deles que fosse! O foniatra disse que talvez
sejam fornecidos em postos de sade ou por intermdio
da secretaria de promoo social do estado, mas j
pensou o quanto deve demorar isso?
- Nem quero pensar! Ser que isso algum dia vai
mudar, Samara?
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- Para o bem das nossas crianas, espero que sim.
- H milhes de surdos em nosso pas, sem contar
os que ensurdecem por acidente de trabalho e
outras causas, aparentemente inocentes: danceterias,
motocicletas turbinadas, walkman, e nem imaginam
que sejam surdos; at se surpreendem quando fazem
os exames. Quando tm acesso a eles, naturalmente.
- Ainda bem que a Ndia no depende disso. Ela
vai ouvir e at falar, se Deus quiser. Precisava ver a
menina l na escola, Rodrigo. Foi uma empatia instantnea.
Eu disse pra voc que ela tinha garra!
- No que depender de ns, ela ter tudo o que
precisa, nem que eu tenha de pedir um aumento ao
meu chefe - garante Rodrigo.
- De mim tambm, pai - diz Gustavo, pegando o
fim da conversa. - Achei to legais os aparelhinhos da
Ndia!... E a v? Vai fazer os bolsos de croch, me?
- De todas as cores, para as camisetas da Ndia -
confirma Samara - Est mais entusiasmada que eu.
- Com todo esse pensamento positivo, a Ndia
vai conseguir - sorri Rodrigo.
Enquanto isso, a garota, toda animada, mexe e
remexe nos aparelhos, como se fossem delicados brinquedos.
49
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Captulo quinto
Dia mgico: o telefona toca, e a assistente social
tem uma boa notcia:
- Conseguimos uma vaga para a Ndia!
Alegria. Samara toma a menina nos braos e roda
com ela pela sala. A garota sorri, com os olhinhos brilhando
de felicidade.
- Isso  o s comeo, Ndia. Por enquanto voc
no ouve nada, minha querida, mas tudo vai mudar!
J temos os aparelhos, no temos? Estamos com dvidas
at o pescoo, mas temos os benditos aparelhos, e
amanh voc vai para a escola!
"Meu Deus, os bolsinhos de croch! Preciso ligar
pra mame." Samara pega o telefone.
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- Al, me?! Os bolsinhos esto prontos? Ah, faz
tempo? , me, a senhora  uma santa! Obrigada! Vou
correndo pegar, hoje, claro. Amanh a Ndia vai para
a escola. Conseguimos uma vaga!... Sim, acabou-se o
tempo triste do silncio. Agora  um novo tempo, de
reconhecimento da vida!
De manh cedo, a garota j est prontinha, com os
bolsinhos de croch pregados na camiseta. Os aparelhos
vo na caixa, quem vai coloc-los  a professora. A
ansiedade de Samara  to grande que Gustavo brinca:
- Parece que a senhora  que vai para a escola, me!
- Pois vou mesmo, t torcendo loucamente pela
Ndia. Ela est bonitinha, no est?
- Ela t sempre bonita - diz Gustavo, galante. As
duas crianas agora so amigas. O quarto de Gustavo
continua sendo o paraso da menina, que vasculha
tudo, descobrindo todos aqueles brinquedos mgicos.
s vezes cai de cansao e dorme ali mesmo, no tapete.
Gustavo vem correndo chamar:
- Quem me ajuda a levar a Ndia pra cama dela?
T pesada!...
Engordou, ficou mais bonita ainda, com um ar
saudvel. Passou tambm pelo pediatra, que fez uma
srie de recomendaes, incluindo vitaminas. Integrou-
se perfeitamente  famlia. Principalmente ao
Rodrigo. Nem bem ele chega, ela corre para sentar no
seu colo. Adora ter um pai. Sem falar na grande amizade
que se instalou pouco a pouco com Gustavo, que
aprendeu a dividir seu espao, seus pais, seus brinquedos.
Salutar para todos.
Samara ama a menina. Tem um carinho todo
especial por ela. A comunicao entre ambas  um
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pouco difcil, mas tudo  transmitido na base da
empatia, de gestos, sorrisos e abraos. H uma grande
ternura entre elas, e isso  que importa. A assistente
social avisou que  importante que a famlia de um
surdo tambm aprenda a lngua de sinais. Samara vai
aprender, claro que vai, depois ensinar ao Rodrigo e
principalmente ao Gustavo; eles j se dispuseram a
isso. Vai ser uma coisa nova e at divertida.
Ndia  inteligente, percorre cada canto da casa
fazendo novas descobertas. O jardim  um dos seus
lugares favoritos. Ela cheira e apalpa tudo, descobrindo
a vida. Tem os olhos brilhantes, curiosos, a mente
perfeita: um ser latente, explodindo de emoes, 
espera de que possa canalizar tudo aquilo em gestos,
sons... palavras! Comove aquele jorro contido que
paira no ar, como aura, em torno de sua pessoa.
Gustavo, sensvel, percebe:
- Me, parece que a Ndia quer gritar...
- Tambm sinto isso, meu filho.
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Escola. Mundo novo, fantstico. Ndia sobe as
escadas com vontade, de mos dadas com Samara.
Tudo nela  vibrao e coragem. Adivinha, supe,
deseja. O brilho nos olhos contagia a professora:
- Mas que menina bonita! E que ar inteligente!
- Estou to confiante! - exulta Samara. - Aqui
esto os aparelhos. Como  que vocs vo fazer?
- Deixe comigo - sorri a professora Neide. - Vamos
primeiro despertar o interesse da menina pelos aparelhos,
atravs da sua curiosidade natural. Se no houver
rejeio, eles sero colocados primeiro por uma hora ao
dia; depois ampliaremos o tempo de uso.  preciso que
faam parte dela, que ela v para casa com eles, e no
os tire mais, apenas na hora de dormir. O processo 
lento, mas muito produtivo. Tenha confiana!
Samara tambm sorri:
- Mas eu tenho. Muita mesmo!
Hora da despedida. Ndia segura firme a mo de
Samara, no quer largar. No canto do olho, uma lgrima
furtiva. Samara abraa a menina, olhando-a, como
quem diz: "voc tem de ficar aqui..." E vai soltando a
mo de Ndia aos poucos, enquanto a professora, carinhosa,
leva a menina para junto do grupo. Ndia ainda
se volta, a lgrima agora corre pelo seu rosto,  a segunda
separao da sua vida. Samara estremece, mas se contm:
 para o bem dela. Sai quase correndo dali. O choro
silencioso j desce pelo pescoo de Ndia, molhando a
camiseta com os bolsinhos de croch...
A classe. Turma risonha, todos com aparelhos em
bolsinhos semelhantes aos de Ndia. Carinhas alegres
em volta de Neide, que, sentada no meio do crculo, diz:
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- Esta  a Ndia. Ela veio ficar com vocs.
As crianas abrem uma brecha, Ndia se senta,
com o olhar assustado. Confronta-se com rostos, fios,
botes nos ouvidos, a crianada que manobra os aparelhos
como se brincasse com os brinquedos favoritos.
Foi colocada de propsito numa turma mais adiantada,
para ter um estmulo maior. Os testes indicaram
que seu QI  excelente, pode render muito.
A ordem na escola  interagir. A professora fala
devagar, mas normalmente, e os alunos reproduzem
os sons  medida que os ouvem, mesmo sem saber
falar. A inteno  incrementar todo o sentido oral das
crianas, despert-las para a palavra. Tambm lem os
lbios de Neide, tentando captar o sentido das frases.
Depois h a sesso dos contos de fadas. A professora
conta histrias infantis conhecidas, como Cinderela,
usando a lngua brasileira de sinais. A crianada ri, feliz,
com as expresses corporais da professora, experiente no
que faz. Ela ento pede a eles que recontem a histria
para ela. Corrige erros, reforando a empatia com todos.
As horas passam e chega o fim das aulas. Samara,
correndo de volta da escola onde leciona, espera por
Ndia. A menina sai sorridente, sem usar aparelho
algum. A professora vem conversar, diz que o aproveitamento
foi bom, que a garota promete. Ainda 
muito cedo, mas ela aceitou bem a convivncia com
as demais crianas, brincou com os aparelhos, usou-os
por alguns momentos.
O pior j passou. Agora  apenas uma questo de
pacincia, de rotina: todas as manhs, Ndia ir para a
escola e conviver em plena interao com os colegas.
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Dias, semanas, meses voam. Incrvel como o
tempo passa rpido, principalmente quando estamos
ocupados. Samara se desdobra. Tem as prprias aulas -
incluindo as da lngua de sinais, que aprendeu rapidamente,
com muita fora de vontade, em classe de
ouvintes, para pais e professores de deficientes auditivos,
repassando depois para a famlia -, a casa para
cuidar, o marido, o filho. Gustavo, seduzido pela nova
lngua, diverte-se na companhia de Ndia, trocando
informaes com a rapidez dos cometas.  como se
fosse um jogo fascinante, uma viagem espacial.
Ndia freqenta diariamente a escola para deficientes
auditivos,  uma correria. Agora j usa os aparelhos
o dia todo, tirando-os apenas para dormir.
Segundo Neide, est plenamente integrada na turma.
Viva, inquieta, desperta para a vida. De vez em quando,
faz birra e esconde os aparelhos debaixo da roupa
ou dos travesseiros. Depois volta atrs e os recoloca
nos ouvidos, com a prtica e a confiana que adquiriu.
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Com os sons que agora escuta, ela se abre para o
mundo exterior, como uma flor que desabrocha. Com
um ano de escola, para surpresa inclusive dos professores,
seu vocabulrio j  composto de doze palavras,
algo mais que excelente, quase extraordinrio. E as
repete, como se tivesse um prazer cada vez maior em
ouvir a prpria voz: au-au, papai, mame, p, bumbum,
tchau, oi, brrr, piupiu, acabou, mo, d.
Todo o seu universo est a, resumido nessas poucas
palavras que ela repete, usa e abusa, numa fria de
ouvir a prpria voz, essa coisa mgica que lhe foi
enfim revelada, depois de tanto tempo.
Ela  um milagre vivo! s vezes, Samara ouve,
incrdula, a menina ensaiando algumas notas musicais.
Um canto peculiar, sem melodia, sons desarmnicos,
mas um canto!
Canta para as paredes, para o gato de olhos verdes,
para Gustavo, Rodrigo e Samara. Canta para as
plantas no jardim ou para os brinquedos no quarto.
Canta para a tev, para a janela, para a av que s
vezes vem visitar a famlia. J acorda cantando.
Todo o seu rosto agora ganha vida. Seus aparelhos
so as caixinhas mgicas que lhe garantem um
lugar no mundo dos "normais". Ela passa a sondar
cada nuana do som que advm deles, brinca e reluta
em tir-los at mesmo para dormir.  a primeira coisa
que procura ao despertar. E seus olhos brilham, seu
rosto fica colorido de emoo. E se deslumbra com o
som da prpria voz, se encanta, como se cuidasse de
um brinquedo precioso, extico: ela mesma. E no
sabe se canta ou se ri, se fala ou se brinca de falar, contagiada
e contagiante na alegria da descoberta.
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De repente... a bomba! Rosa escreve, dizendo que
vir buscar a filha. Um ano j? Um ano! Est morta de
saudades, quer a menina de volta. Est bem l na roa,
vivendo com a famlia, em uma casinha modesta, mas
sua. Tem o suficiente para levar uma vida digna e sem
grandes privaes. Caiu por ali uma chuva abenoada,
a lavoura floriu, deu uma boa colheita! Como est a
Ndia? Que maravilha se j estiver ouvindo alguma
coisa... Est na hora de ela voltar a morar com sua verdadeira
famlia.
Tristeza na casa. Samara se debulha em lgrimas.
Como assim, voltar? Quando conseguiu quase um
milagre na escola, onde  apontada como um caso
extraordinrio entre as outras crianas, justo agora
que estavam to confiantes no tratamento? Ir para a
roa, assim sem mais nem menos, no momento de
comear o curso fundamental, dar o primeiro passo
para uma vida normal? Depois, quem sabe, um curso
profissionalizante, que lhe garanta um lugar na sociedade?
Voltar?
Samara
Rua dos Reis, 26
So Paulo - SP
CEP 01324-000
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- Ns prometemos a ela, um ano... - diz Rodrigo
tristemente, e seus olhos parecem chorar, tamanha  a
melancolia que exprimem.
- De jeito nenhum! - interrompe Gustavo, louco
da vida. Ele aprendeu a amar aquela irmzinha antes
to arredia e agora to esperta e risonha, que canta
pela casa e brinca com os sons.
- Gustavo tem razo, eu no vou devolver a Ndia
- Samara decide. - Deix-la ir para a roa agora seria
um crime! Ela despertou para a vida, merece continuar
o tratamento, ter a chance de ser uma pessoa normal.
- Ela tem me, querida - contrape Rodrigo, com
a voz da razo. - A guarda nos foi dada provisoriamente
pelo juiz.
- Mas sem prazo determinado, lembra-se?
Podemos justificar que a menina ainda precisa de tratamento,
e  verdade. Ela est apenas no comeo. Uma
pessoa surda congnita vai adquirindo o vocabulrio
praticamente pela vida inteira. Se for mantida numa
roa, sem professores especializados  sua volta, ela
poder at regredir. Eu no vou entregar a menina!
Tocam a campainha. Ndia vai abrir, toda sapeca.
De repente, ali,  sua frente, est Rosa, sorridente, que
a abraa:
- Minha filhinha querida, como est bonita!
Como cresceu! Voc me ouve, Ndia?
- Me! - grita a menina, e foge para dentro, refugiando-
se na saia de Samara.
Rosa entende o gesto da menina:
- Tudo bem, dona Samara? Vejo que a senhora
cuidou muito bem da minha Ndia...
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- Entre, Rosa, eu no a esperava to cedo...
As trs na sala. Rosa sorri para Ndia, que ainda
est escondida atrs de Samara. Como se temesse um
ataque daquela estranha, que lhe  vagamente familiar,
mas causa medo. Como se uma fora inconsciente
lhe segredasse que dela vir o perigo.
- Vim buscar a Ndia.
- Ela ainda no pode ir com voc, Rosa, sinto muito.
Precisa continuar o tratamento. Est indo muito
bem, j fala doze palavras, no pode parar agora. A
gente quer que ela seja uma pessoa normal, que possa
cuidar de si mesma, no quer?
- Espere a, dona Samara - Rosa senta-se para
entender melhor o que se passa. Depois continua: - A
gente combinou um ano, agora j passou. Eu disse que
vou levar a Ndia e vou mesmo. A senhora no pode
me impedir...
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- Deixa eu lhe explicar uma coisa - Samara sentase
tambm, em frente  outra. - Quando voc avisou
que vinha, eu falei com meu advogado. Ele confirmou
que a guarda provisria no tem um prazo-limite,
quer dizer, pode ser bem maior do que um ano. O que
importa  o bem da criana. O juiz de menores vai
entender isso...
- A gente vai ter de brigar pela Ndia na justia,
 isso que a senhora t querendo dizer? - Rosa nem
acredita no que ouve. Ser que Samara, uma mulher
to boa, est querendo roubar a sua filha?
- Eu at imagino o que voc est pensando, que
eu quero ficar com a sua filha - rebate Samara, instintivamente.
- No  isso, eu lhe garanto, Rosa. Voc
pode ver a Ndia quando quiser, a casa est aberta,
voc  e ser sempre a me dela. Mas pense bem: o que
adianta levar a menina pra roa agora? Ela vai comear
a primeira srie, ser alfabetizada, aprender a ler e a
escrever, e isso numa escola especial. Sem essa escola,
com professores treinados, ela dificilmente aprender...
Em pouco tempo voltar a ser como antes, e isso
eu no posso permitir.
- Mas eu tenho tanta saudade... A filha  minha, eu
tenho o meu direito - ainda argumenta Rosa, indecisa.
- Eu sei, Rosa, ningum est negando o seu direito.
Pode ficar sossegada, Ndia est bem, ns a amamos
como se fosse nossa filha, o Gustavo a adora
como se fosse mesmo irmzinha dele. Como eu disse,
ela comeou o curso fundamental, tem uma longa jornada
pela frente. Por favor, Rosa, no me obrigue a
lutar pela guarda da Ndia na justia. Ela tambm tem
o direito de viver e aprender como qualquer criana.
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Repito: se voc a levar agora, como acha que ela vai
estar daqui a alguns meses? Esquecendo tudo que
aprendeu, voltar a ser a menina solitria que era
antes! No  isso que voc quer, ?
Rosa olha para Ndia, escondida atrs de Samara.
Tudo se inverteu: agora,  ela a estranha para a filha.
Como ser daqui a um ano, dois? Cada vez mais estranhas,
cada vez mais distantes uma da outra... E se o
juiz entendesse o seu direito de me verdadeira e
devolvesse a Ndia para ela? Poderia levar a menina l
para o Nordeste, para sua casinha humilde, juntar a
famlia de novo. A escola  distante vrios quilmetros,
e a crianada, se quiser estudar, vai apinhada at
em carroceria de caminho. Ser que nessa escola tem
uma professora que entenda a Ndia, que faa ela
aprender a ler e a escrever?
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Ndia j fala doze palavras, disse a dona Samara.
No  muito, mas  um comeo. A menina parece
feliz, est forte, corada, bem-vestida; at o fato de se
esconder atrs da saia de Samara revela o quanto se
sente querida e protegida. Ser que ela tem o direito,
mesmo como me, de negar tudo isso  filha? A escola
especial, o aprendizado? Isso  amor verdadeiro ou
apenas uma forma de egosmo? Afinal de contas, algo
bem maior est em jogo: a vida e a independncia de
Ndia como ser humano.
Rosa respira fundo, criando coragem. No 
mulher de meias-palavras, nunca foi.  direta e objetiva,
como Samara. Se tem de decidir, que seja agora.
Seu corao est apertado, mas ela finalmente diz,
consciente da sua dor e sacrifcio:
- Tudo bem, dona Samara, a senhora me convenceu.
Fique com a menina o tempo que ela precisar. Eu
no vou levar a Ndia.
Vrios anos se passaram. Ndia agora  uma
mulher. Completado o curso profissionalizante, ela
trabalha como digitadora numa grande firma, onde 
considerada uma funcionria exemplar. Ela ainda vive
com a sua famlia adotiva: Samara, Rodrigo e Gustavo.
Este tornou-se mais que um amigo, um verdadeiro
irmo para ela. Nas frias, ela viaja para o Nordeste,
onde rev sua me biolgica, Rosa, e seus irmos.
Ndia leva uma vida normal. No futuro, pretende
se casar e ter filhos. No momento, seus planos
incluem entrar na faculdade - quer ser advogada. Sua
prioridade profissional ser a defesa e a incluso social
de pessoas deficientes.
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Instituies que trabalham com surdos
Diviso de Educao e Reabilitao dos Distrbios da
Comunicao (Derdic - PUC-SP)
Tel.: (0XX11) 5549-9488
www.derdic.pucsp.br
Federao Nacional de Educao e Integrao dos Surdos
(Feneis)
Tel.: (0XX11) 5549-3796 - Seo SP
(0XX31) 3225-0088 - Nacional
www.feneis.com.br
Instituto Nacional de Educao de Surdos (INES)
Tel.: (0XX21) 2285-7692
www.ines.org.br
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GISELDA LAPORTA NICOLELIS
Nasceu em 27 de outubro de 1938, no bairro da
Liberdade, em So Paulo. Comeou a escrever aos
nove anos e no parou mais. Publicou seu primeiro
livro em 1974. Agora eles somam mais de cem, a maioria
para crianas e jovens, que lhe renderam alguns
prmios literrios: o Jabuti 85 e o APCA 82, de literatura
juvenil; o Monteiro Lobato 74 e o Joo de Barro
80, de literatura infantil.
Alm de escrever, Giselda adora ler, ouvir msica
e ir ao teatro. Tem dois filhos, trs netos e j plantou
uma rvore.
Giselda acredita no papel social do escritor e, por
isso, ela se inspira principalmente na realidade para
executar o mgico ofcio da criao literria.
 autora de Histrias verdadeiras, O fantasma da
torre, O milagre de cada dia e O resgate da esperana,
todos desta coleo.
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